Ciclididades
Anderson Santos
A vida acontece sobre um planeta em movimento.
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A Terra gira, aproxima-se e afasta-se da luz, retorna continuamente a pontos semelhantes de sua órbita, e nesse constante deslocar-se estabelece o que reconhecemos como tempo. Dias, estações, marés, ventos: tudo responde a esses giros. A existência se organiza em retornos, em repetições que nunca são idênticas, mas que sustentam a continuidade da vida.
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Dentro desse planeta em rotação, o circular não é apenas um fenômeno astronômico. Ele se manifesta de inúmeras maneiras: nos ciclos da água que atravessam eras, espaços e corpos, nas correntes atmosféricas que desenham espirais sobre os oceanos na forma de ciclones, nas plantas que se erguem ao redor de um eixo em busca da luz, nos ciclos invisíveis que conectam matéria, energia e transformação. O mundo não se move em linha reta, ele se refaz em voltas.
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A própria vida vegetal participa dessa coreografia. Árvores registram o tempo em anéis de crescimento, folhas crescem em espirais, caules organizam-se ao redor de eixos que sustentam sua ascensão. Crescer, para as plantas, é também girar com o mundo.
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E há ainda um gesto essencial para a continuidade: o desprendimento. Perder folhas é parte inseparável da vida vegetal. A queda não é interrupção, mas continuidade. É assim que a floresta se alimenta de si mesma, renova-se pela ciclagem dos nutrientes, transformando corpos em fertilidade, matéria em recomeço.
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Nas obras Gesto em ciclone e Desvio do gesto o corpo inscreve no linho movimentos circulares em ressonância com os ciclones do hemisfério sul, que giram no sentido horário e se deslocam entre forças ascendentes e descendentes. O gesto humano repete, em escala sensível, os movimentos que moldam o planeta.
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Em Ciclicidades, folhas de plantas nativas da Mata Atlântica - imbé, pau-brasil, quaresmeira, tapiá-guaçu, paineira-rosa, grumixama e outras - aparecem já desprendidas de seus corpos, repousando sobre superfícies urbanas. Caídas em calçadas, asfalto e concreto, elas já não encontram o solo vivo que as receberia na floresta, nem a comunidade de outras folhas com as quais formariam a serrapilheira. O ciclo continua, mas o solo mudou. A cidade interrompe o reencontro entre queda e transformação, deixando suspensa uma pergunta: para onde vai o que deveria voltar à terra?
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Beatriz Lindenberg nos convida, nesta exposição, a perceber que ciclos e movimentos são forças permanentes na história da Terra e em toda a vida que a habita. Entre gestos do corpo, deslocamentos do ar e folhas que ainda tentam cumprir seu destino de retorno, suas obras revelam a delicadeza desses movimentos contínuos e nos lembram do valor profundo que habita os fenômenos naturais que nos cercam.
